Filme | “Verão” de Kirill Serebrennikov

Apesar do diretor Kirill Serebrennikov estar em prisão domiciliar pelas críticas que fez ao governo russo, seu filme roda livre o mundo.

Título: Leto
Diretor: Kirill Serebrennikov
Roteiro: Kirill Serebrennikov
Produção: Kinovista
Duração: 2h6min
Estreia: 15/11/2018

Sinopse

No verão de 1981, o rock underground chegava na Rússia Soviética, mais precisamente em Leningrado, onde hoje localiza-se a cidade de St. Petersburg. Sob a influência de artistas internacionais, como Led Zeppelin e David Bowie, o rock vibrava na cidade, marcando o nascimento de uma nova geração de artistas independentes. O jovem Viktor Tsoi (Teo Yoo) ganhou fama internacional e tornou-se o primeiro grande representante russo do gênero. Além da música, ele também ficou conhecido pelas polêmicas relacionadas a sua vida pessoal, como o triângulo amoroso que viveu junto com o seu mentor musical, Mike, e a esposa dele, Natasha.

 

No inicio dos anos 80 o mundo já conhecia quase tudo que o rock poderia oferecer e que ofereceria até então, mas na Rússia Soviética, o movimento underground ainda estava nascendo em volta de muita pressão e censura. Como um movimento de um gênero claramente libertário— no melhor sentido de libertação— poderia fazer berço? Fez! E se propagou!

“Leto”, nome ocidentalizado do filme, que em tradução ficaria “Verão”, traz em si o próprio significado de mudança, seja de estação, de atitude, de ares, e também é o nome de uma das músicas mais famosas da banda ‘Kino’, retratada no longa.

O filme segue a história real das bandas Kino e Zoopark e dos seus respectivos Viktor(Teo Yoo) e Mike(Roman Bilyk). Já de inicio é possível ver a dualidade com que a trama vai ser contada, durante um show da banda de Mike, Zoopark, temos um teatro lotado, todos sentados enquanto o rock rola no palco, agentes da censura por todos os lados para inibir qualquer movimento orgânico de agitação pela música. Mas o rock sempre dá o jeito de se expressar, tem gente entrando pela janela do banheiro, jovens fumando e bebendo pelos corredores, os “subversivos” estão por todas as partes, embaixo dos narizes dos opressores.

Mike já é conhecido por todos, é o maior talento da casa de rock da cidade, é casado com a bela Natasha e adequou seu modo de vida ao “status quo” da sociedade reprimida, a musica que faz não traz vida àquele corpo, não era aquilo que ele queria, mas é assim que tem que ser. Numa “party beach” com os amigos, ele conhece Viktor, vocalista de uma banda sem nome, mas com uma atitude bem mais “rock’n roll” que a dele, atitude que ele gostaria de ter, mas que a vida e o governo já tinham lhe arrancado. Viktor é a nova estação que veio deixando Mike para traz. Mike é o grande responsável pelo sucesso que a banda de Viktor ia se tornar, ele vira seu mentor, futuramente seu produtor e em certo ponto “amigo”.

A história em si do filme de Kirill ganha mais importância pela estética que o filme carrega. Filmado em preto e branco, às vezes parecendo aqueles velhos filmes caseiros em 8mm, ganha vida de verdade nos pequenos clipes oníricos que acontecem vez ou outra durante o longa. Com músicas conhecidas de famosos da época, temos um grande momento ao som da música “Psycho Killer” da banda “Talking Heads” numa cena dentro de um vagão de metrô, onde Kirill consegue enganar, encantar e envolver o público numa das sequencias mais geniais do filme. Misturando a opressão com a vontade de rebater dos oprimidos, quebrando a narrativa numa metalinguagem de como tudo poderia, gostaria, quereria ter acontecido, e ao final disso tudo, um rapaz misterioso com uma placa “Não foi assim que aconteceu” nos traz de volta á realidade opressora daquele país.

Apesar de eu ter frisado bastante a opressão daqueles tempos, o filme não é político, nem um romance, mas fala de amor sim, amor à música, amor à liberdade e à arte. Em partes pode-se dizer que nessa história Kirill veja uma forma de também de se libertar das amarras que o governo ainda traz para seus artistas. O filme traz em si certo tom de urgência e talvez de jeito premeditado, uma forma irregular de contar e montar a história, característica do próprio movimento underground. O romance é mostrado de maneira ingênua, quase adolescente, a música é o grande condutor de tudo e o faz muito bem.

 

 

A música título do filme para entrar no clima: